Afirmações como “só usamos 10% do cérebro” ou “temos apenas um estilo de aprendizagem”, embora bastante populares, são falsas. Saiba mais no artigo.
A neurociência tem transformado a educação. Cada vez mais, educadores têm estudado e buscado informações sobre o funcionamento cerebral para tornar o processo de ensino e aprendizagem mais eficaz. Contudo, ao pesquisar sobre o tema, é comum se deparar com alguns conceitos falsos, sem base científica — mas que, por terem sido repetidos por muito tempo, acabaram ganhando status de verdadeiros. São os chamados neuromitos.
É importante tomar cuidado com essas informações falsas: afinal, decisões pedagógicas devem ser baseadas em evidências. Veja, abaixo, 4 neuromitos famosos sobre aprendizagem e o que a ciência diz sobre cada um deles.
Nós usamos apenas 10% do cérebro
Essa afirmação, embora bastante difundida, é falsa. Por meio de exames de imagem, os cientistas conseguem observar que mesmo enquanto estamos dormindo ou quando executamos tarefas simples, o cérebro está em grande atividade.
Não há nenhuma base científica para acreditar que poderíamos “desbloquear” áreas do cérebro que não são utilizadas e nos tornarmos mais inteligentes por isso. Na verdade, na maior parte do tempo, quase todo o cérebro está em atividade.
Portanto, para aprender, não é preciso usar uma parcela maior do cérebro, mas, sim, dedicar tempo à prática da habilidade desejada.
Cada pessoa tem um estilo de aprendizagem e deve ser ensinada baseada apenas nessa preferência
Também é muito popular a crença de que cada pessoa tem um estilo de aprendizagem — visual, auditivo ou cinestésico (relacionado ao movimento e à “mão na massa”) — e que, portanto, o ensino seria mais eficaz se seguisse essa preferência individual. Contudo, essa ideia também é um mito.
A pesquisa Learning Styles: Concepts and Evidences (Estilos de Aprendizagem: Conceitos e Provas), publicada em 2008, afirma que, apesar de haver muitos estudos sobre estilos de aprendizagem, pouquíssimos usaram modelos adequados para a análise. A conclusão é de que não há base científica para justificar a incorporação de avaliações de estilos de aprendizagem à prática educacional.
Pessoas “de exatas” usam mais o lado esquerdo do cérebro; quem usa mais o lado direito, é mais criativo
Embora cada metade do cérebro possa ser mais ativada a depender da atividade que está sendo realizada, ambos os hemisférios sempre trabalham em equipe. E todos nós usamos os dois lados!
Ou seja: a ideia de que existem pessoas mais racionais e melhores em matemática por terem um lado dominante do cérebro, e pessoas artísticas por terem outro lado mais ativo, não passa de um mito.
Claro que as pessoas podem ter aptidões e preferências — mas isso nada tem a ver com a existência de um lado dominante do cérebro.
Como apontam os neurocientistas José A. Morales García e Conchi Lillo neste artigo, acreditar nesse neuromito pode levar a separar os alunos em duas categorias, o que pode limitar as oportunidades de aprendizagem e impedi-los de se desenvolver em outras disciplinas.
A aprendizagem só acontece na infância e adolescência
As crianças de fato têm uma facilidade maior para aprender. Nessa fase, a plasticidade cerebral (capacidade do cérebro de se adaptar e formar novas conexões) realmente é maior. Contudo, é errado achar que, com o passar dos anos, sobretudo ao chegar à vida adulta, perdemos a possibilidade de aprender novas habilidades.
Na verdade, podemos (e devemos) aprender ao longo de toda a vida! Talvez seja necessário se esforçar um pouco mais — por exemplo, para aprender um novo idioma ou a tocar um instrumento —, mas com repetição, prática e experiências significativas, sempre será possível desenvolver novas competências e fixar conhecimentos. Seguir aprendendo é, aliás, fundamental para manter a mente e o corpo saudáveis.